Fábio Coentrão chorava, Cristiano Ronaldo deixava escapar “que injustiça”, também ele com os olhos raiados de lágrimas. Portugal caiu nos penaltis. Com a sorte a tomar o partido de Espanha: a bola de Bruno Alves bateu na trave e não entrou; a bola de Fabregas bateu no poste, entrou e colocou La Roja na final do Euro’2012. Justiça e injustiça não cabem num jogo de futebol. Azar e sorte, factores tão aleatórios como esses são inevitáveis. Portugal pode queixar-se da sorte, sim. Mas não pode queixar-se de falta de empenho, falta de atitude, falta de carácter, falta de personalidade, falta de ambição. É triste, muito triste, frustrante e uma grande desilusão. Mas os 10 milhões de corações têm de bater repletos de orgulho naquele grupo de rapazes conduzidos por Paulo Bento. A presença na final era merecida. Mas quem lá está é a Espanha, pela terceira vez consecutiva e a fazer história. O velho chavão repete-se: Portugal cai de pé e de cabeça levantada. Porque é, já, uma das quatro melhores equipas da Europa. Bravo, bravíssimo Portugal! Mesmo que o sonho tenha sido interrompido.
O jogo durou 120 minutos e foi intenso, particularmente durante os 90 do tempo regulamentar. Portugal encarou a todo-poderosa Espanha, campeão da Europa e do Mundo em título, olhos nos olhos, foi organizado, inteligente e personalizado, pressionou o adversário de forma a que o melhor de La Roja fosse anulado e conseguiu-o ao ponto de ter sido superior em vários períodos.
Não houve grandes oportunidades nem a posse de bola da Espanha foi o que costuma ser. Na primeira parte, Iniesta rematou em jeito, ao que Cristiano Ronaldo respondeu com um remate a rasar o poste esquerdo. Na segunda parte a melhor oportunidade acabou por pertencer uma vez mais a Cristiano Ronaldo, com o relógio a marcar os 90 minutos, mas a bola saiu muito alta e assim chegava o prolongamento. Aqui, sim, a Espanha foi ligeiramente superior, com Rui Patrício a fazer a sua primeira grande (e fantástica) defesa a um remate de Iniesta já dentro da pequena-área.
As grandes penalidades chegavam sem surpresa e Portugal até começou bem. Rui Patrício (que, coincidência ou não, acabara de ouvir algumas indicações de Cristiano Ronaldo ao ouvido) defendeu o remate de Xavi Alonso; João Moutinho foi o primeiro português a encarar Casillas, mas o guarda-redes espanhol também defendeu e voltava a estar tudo empatado. Iniesta deu vantagem a Espanha; Pepe converteu com grande classe a sua grande penalidade; Piqué voltou a colocar os espanhóis em vantagem; Nani voltou a empatar; Sergio Ramos marcou à Panenka e Bruno Alves rematou à trave. No que viria a ser o penalti decisivo, Fabegras encarou Rui Patrício, rematou, a bola bateu no poste e… entrou. 4-2 para a Espanha. Portugal caía nos penaltis; os espanhóis seguiam para a sua terceira final consecutiva. Com muito sofrimento e sem brilho, é certo. Injustiça? Em futebol não há justiça nem injustiça. Foi frustrante para as cores lusas e a maldita trave lá continua, depois de Cristiano Ronaldo ter levado 4 bolas ao poste nos jogos anteriores. Azar, mas com muito orgulho no que ficou de Portugal neste Euro’2012. O sonho acabou. Por agora. Porque esta é uma equipa de campeões.
CRISTIANO RONALDO: “NÃO TIVEMOS SORTE”
“Há um sentimento de tristeza. Perder o acesso a uma final é sempre doloroso. Penaltis são uma lotaria. Era o quinto a bater, não tive oportunidade de o fazer. Foi um Europeu muito bem conseguido, estivemos nas quatro melhores equipas do Europeu, não ganhámos porque não tivemos sorte. Os penaltis são assim. Estamos frustrados porque podíamos chegar à final. Rendimento na selecção e no clube? Dou o melhor como sempre. Estou satisfeito pelo que fiz. Temos de estar orgulhosos, merecemos estar na final, mas os penaltis são assim.”
NANI: “É DIFÍCIL SAIR ASSIM”
“Mostrámos um enorme esforço e empenho, é difícil sair assim, depois de 120 minutos a lutar e a sofrer. Mostrámos qualidade e provámos que somos capazes de enfrentar qualquer equipa. Parabéns à Espanha, que tem um conjunto excelente. Sempre acreditámos neste grupo, jogo a jogo fomos ganhando confiança e por isso chegámos onde chegámos. Penso que os portugueses podem sentir orgulho de nós e do nosso empenho. Merecíamos estar na final e mostrámos a muita gente que somos capazes de representar o país com toda a dedicação. Parabéns a todos pela atitude, temos um grupo fantástico e temos de continuar a trabalhar desta forma para conseguirmos mais sucessos.”
PEPE: “É TRISTE PERDER ASSIM”
“Os penaltis são uma lotaria. Durante o jogo formos uma equipa bem organizada, a Espanha não teve ocasiões de golo. A nossa equipa está de parabéns. Infelizmente não marcámos. Saímos com uma grande tristeza. Queríamos dar uma alegria aos portugueses. Acho que fizemos um grande jogo, trabalhámos bem. Fomos uma equipa aguerrida. Perder nos penaltis é triste.”
BRUNO ALVES: “PODEMOS FAZER MAIS E MELHOR”
“Sinto que dei o meu melhor e estou aí se precisarem de mim para outra ocasião. Todos os jogadores, dirigentes e staff acreditavam numa boa campanha e ficaram enaltecidas a capacidade e a qualidade desta selecção. Podemos fazer mais e melhor no futuro.”
NELSON OLIVEIRA: “CABEÇA ERGUIDA”
“Entrei para ganhar, infelizmente não conseguimos, mas saímos de cabeça erguida. Fizemos um grande jogo, batemo-nos de igual para igual com a Espanha, mas infelizmente não conseguimos marcar.”
Donbass Arena, Donetsk (Ucrânia).
Árbitro: Cuneyt Çaakir (Turquia). Assistentes: Behattin Duran e Tarik Ongun. Assistentes de baliza: Huseyin Goçek e Bulent Yildirim.
Cartão amarelo: Sergio Ramos (40’), Fábio Coentrão (45’+1’), Busquets (60’), Pepe (61’), João Pereira (64’), Arbeloa (84’), Bruno Alves (86’), Miguel Veloso (90’+3’) e Xavi Alonso (113’).
PORTUGAL – Rui Patrício; João Pereira, Pepe, Bruno Alves e Fábio Coentrão; Miguel Veloso (Custódio, 106’), Raul Meireles (Varela, 113’) e João Moutinho; Cristiano Ronaldo, Nani e Hugo Almeida (Nélson Oliveira, 81’).
Treinador: Paulo Bento.
ESPANHA – Casillas; Arbeloa, Piqué, Sergio Ramos e Jordi Alba; Xavi (Pedro, 87’), Busquets e Xabi Alonso; David Silva (Navas, 60’), Iniesta e Negredo (Fabregas, 54’).
Treinador: Vicente del Bosque.
Resultado final: 0-0.
Grandes penalidades: 2-4.
0-0, Xavi Alonso (Rui Patrício defendeu)
0-0, João Moutinho (Casillas defendeu)
0-1, Iniesta
1-1, Pepe
1-2, Piqué
2-2, Nani
2-3, Sergio Ramos
2-3, Bruno Alves (rematou à trave)
2-4, Fabregas