As lágrimas caíam copiosamente dos seus olhos, prostrado no relvado durante minutos, apesar do conforto dos companheiros. Eduardo era o espelho do desalento, ele que brilhara ao mais alto nível, com uma mão cheia de magníficas defesas. Até no que viria a ser o golo da eliminação, travando o primeiro remate de Villa. Portugal acabara de ser afastado do primeiro Mundial em solo africano. O sonho terminara. E acabou por saber a pouco.
A história do confronto Ibérico dos oitavos-de-final escreveu-se com o pé direito de David Villa e com o calcanhar de Xavi (62’). Até então o jogo tinha sido completamente diferente.
Grande personalidade e inteligência da equipa portuguesa na primeira parte, que soube aguentar o ameaço de fúria espanhola que se verificou nos primeiros oito minutos, período durante o qual Eduardo foi o grande protagonista, com três belas defesas, a remates de Torres (1’) e David Villa (3’ e 7’). Com excepção de mais um disparo de Torres, para fora (12’), a Espanha foi sendo inteligentemente anulada por Portugal, que a partir do momento em que dispôs de dois cantos consecutivos passou a causar calafrios na defesa contrária. A defesa, onde Ricardo Costa voltou a ser aposta, e o meio-campo, onde Pepe surgiu a titular, tiveram um desempenho brilhante no encurtamento dos espaços, o que foi aniquilando a capacidade ofensiva da Espanha, até porque Hugo Almeida lá na frente conseguia prender os centrais adversários.
Com Portugal a exercer bem a pressão sobre os criativos espanhóis, a grande oportunidade dos primeiros 45 minutos saiu dos pés de Tiago (21’), com um belo remate de fora da área após mais uma grande iniciativa de ataque de Fábio Coentrão e de Raul Meireles. Casillas não conseguiu agarrar a bola e Hugo Almeida ficou a muito pouco de desfeitear o guarda-redes espanhol. Seguiu-se um bom livre de Cristiano Ronaldo (27’), que deu muitos problemas ao seu companheiro do Real Madrid; um cabeceamento de Hugo Almeida ao lado (39’), após cruzamento de Raul Meireles; e um remate de cabeça de Tiago ao lado, no seguimento de um excelente passe de Fábio Coentrão (43’), o que aconteceu instantes antes de Casillas ter de sair da área para evitar que Simão caminhasse para o golo.
As equipas iam para intervalo com tudo empatado. Mas quando voltaram o cenário alterou-se. Não de imediato, porque até foi Portugal que poderia, novamente, ter chegado ao golo, num arranque fantástico de Hugo Almeida pela esquerda, que viu o seu cruzamento quase resultar em auto-golo de Puyol (52’). Mas a partir dos 60 minutos, a história alterou-se.
Já sem Hugo Almeida em campo (substituído por Danny) e com Llorente no lugar de Torres, a Espanha virou o jogo. Eduardo continuou a brilhar (espectacular defesa a remate de Llorente, mais uma a remate de Sérgio Ramos, outra ainda a disparo de Villa), mas nada pode fazer no golo, onde até se opôs bravamente ao primeiro remate do futuro jogador do Barcelona. O golo, o primeiro sofrido por Portugal neste Mundial, sentenciou Portugal, que nunca mais conseguiu opor-se ao futebol rendilhado dos espanhóis, que ontem, por sinal, cumpriram dois anos desde que se sagraram campeões da Europa. A um minuto do final, Ricardo Costa acabou por ver o cartão vermelho directo.
Portugal despede-se com sabor a pouco do Mundial da África do Sul e com a sensação de que poderia ter ido mais longe na prova. O sonho chegou ao fim.
FÁBIO COENTRÃO: “O SONHO FICA POR AQUI”
“Fiz o meu trabalho e tentei ajudar, mas o meu sonho fica por aqui. O ambiente no grupo sempre foi espectacular, até por isso sempre pensei que podíamos chegar mais longe, estávamos muito confiantes.”
TIAGO: “PODÍAMOS TER IDO MAIS LONGE”
“Podíamos ter ido mais longe. Tínhamos capacidade para isso, mas acabámos por sair. Se marcássemos primeiro, seria diferente. Eles marcando primeiro é difícil, porque têm qualidade e quando têm a bola é complicado.”
PEPE: “LEVANTAR A CABEÇA”
“Há que levantar a cabeça e acreditar neste projecto da selecção. Acho que todos vocês viram, tanto no Brasil como hoje, que estive bem e capaz de ajudar a minha selecção e o meu país. Saímos tristes, com um golo em fora de jogo, mas agora vamos pensar na próxima.”
DANNY: “PENSAR NO EUROPEU”
“Fizemos um bom jogo, mas é claro que quando se perde nunca se diz que foi bom. Vamos levantar a cabeça. Acabou o sonho e vamos pensar agora a cem por cento no Europeu. Eles tiveram a sorte de fazer um golo em fora de jogo. Não incomoda alternar entre o onze e o banco. Todos os jogadores sabiam que podiam ser titulares. Vinte jogaram e acho que o seleccionador sabe com quem pode contar.”
DECO: “VOU TORCER SEMPRE PELA SELECÇÃO”
“Jogámos bem na primeira parte. Já sabíamos que a Espanha tem muita posse de bola, joga bem de pé para pé. Defendemos bem. Não era com certeza o que imaginei como último jogo na selecção. Mas o mais importante não é não ter jogado, seria a vitória. A minha tristeza é maior por isso. Desejo sorte à selecção, vou torcer sempre por ela, onde quer que esteja. Portugal deu-me muito. Fiz muitas amizades na Selecção, e não só com os jogadores. Vou levar isso comigo, para o resto da vida. Sempre disse que seria difícil deixar a Selecção, mas teria de chegar a altura.”
Estádio Green Point, na Cidade do Cabo.
Árbito: Hector Baldassi (Argentina). Assistentes: Ricardo Casas e Hernan Maidana.
Cartão amarelo: Xavi Alonso (74’) e Tiago (80’). Cartão vermelho: Ricardo Costa (89’).
ESPANHA – Casillas; Sérgio Ramos, Piqué, Puyol e Capdevilla; Busquets, Xavi Alonso (Marchena, 90’+3’) e Xavi; Iniesta, David Villa (Pedro, 87’) e Torres (Llorente, 58’).
Treinador: Vicente del Bosque.
PORTUGAL – Eduardo; Ricardo Costa, Ricardo Carvalho, Bruno Alves e Fábio Coentrão; Pepe (Pedro Mendes, 72’), Tiago e Raul Meireles; Cristiano Ronaldo, Simão (Liedson, 72’) e Hugo Almeida (Danny, 58’).
Treinador: Carlos Queiroz.
Resultado final: 1-0. Ao intervalo: 0-0. Marcador: David Villa, 62’.