Portugal está nos oitavos-de-final do primeiro Mundial africano, uma prova da qual a França e a Itália, por exemplo, já se despediram. O empate servia e até a derrota permitira seguir em frente na prova, mas perder com o Brasil era algo que não estava nas cogitações de ninguém, pelo que Portugal adoptou uma atitude inteligente perante um dos principais candidatos ao troféu. Fez um jogo seguro e tranquilo e até Pepe se estreou na competição. Portugal segue em frente sem sofrer qualquer golo, ao mesmo tempo que somou o 19º jogo sem perder da era Queiroz. Cristiano Ronaldo voltou a ser eleito o homem do jogo – e desta vez ficou com o troféu para ele –, fazendo o pleno nesta fase de qualificação.
Carlos Queiroz disse no final que a equipa entrou no jogo com o fato-macaco vestido e saiu dele de smoking. Quis com isto dizer que depois de uma primeira parte de maior contenção e de maiores cautelas, a segunda mostrou um Portugal bem mais atrevido. Primeira conclusão: Brasil foi melhor na primeira parte, a equipa portuguesa foi superior na segunda; segunda conclusão: o resultado foi justo.
Portugal apresentou como novidades Ricardo Costa a lateral-direito, Pepe a médio defensivo e Danny e Duda no meio-campo, ficando Cristiano Ronaldo na frente de ataque, enquanto no Brasil Júlio Batista substituiu o castigado Kaka, surgindo Nilmar no lugar de Robinho. Numa grande festa da lusofonia, o jogo acabou por ser disputado a um ritmo baixo e sem nenhuma das equipas a querer correr grandes riscos. O Brasil teve mais posse de bola, mas ambas as equipas dividiram as melhores oportunidades, duas para cada lado. Primeiro o Brasil, por Nilmar (30’), que viu Eduardo fazer uma grande defesa, ao afastar a bola para o poste; depois por Luís Fabiano (40’), que cabeceou rente ao poste, depois de um cruzamento de Maicon naquela que foi a primeira vez que o brasileiro conseguiu iludir um Fábio Coentrão que voltou a encher o campo. Pelo meio, Cristiano Ronaldo rematava e rematava, sozinho lá na frente.
Portugal regressou do balneário predisposto a colocar o Brasil em sentido e conseguiu desenvolver bons processos de ataque, que resultaram nas tais duas grandes ocasiões da segunda parte: primeiro por Raul Meireles (60’), que vê Júlio César evitar um golo certo, depois de uma jogada espantosa de Cristiano Ronaldo, que correu e correu desde o meio-campo de Portugal, ultrapassando dois adversários; depois pelo próprio Cristiano Ronaldo (76’), depois de um cruzamento de Simão. Já em período de descontos, Eduardo mostrou a razão pela qual está há tanto tempo sem sofrer golos, quando se opôs a um remate de Ramires, com a bola a ser desviada da sua trajectória por ter batido nas costas de Bruno Alves.
O jogo acabou com as duas equipas a qualificarem-se para os oitavos-de-final, o Brasil em primeiro lugar do grupo, com sete pontos, e Portugal em segundo, com cinco pontos. A equipa portuguesa joga no dia 29, às 19h30, numa Cidade do Cabo que tão boas recordações deixou.
CRISTIANO RONALDO: “AGORA É SONHAR”
“No geral, foi um resultado justo, pois não houve grandes oportunidades. Jogamos contra o Brasil, não contra o Estrela da Amadora! O mister sabe que este não é o lugar que mais gosto, mas estou aqui para jogar onde for preciso e ele sabe que eu estou lá para dar sempre o meu melhor. Não sofremos golos, o que é muito importante, qualificamo-nos, pelo que a equipa está de parabéns.
[Sobre o futuro adversário] Agora não há que evitar nada. Venha quem vier, vamos para ganhar. A equipa está confiante, os jogadores sentem que estão a crescer, por isso tudo será possível.
[Sobre o prémio de melhor jogador em campo] Sim, este ficou para mim. Fui eleito o melhor em campo, mas quero dar ainda mais. Acredito que o Mundial a sério vai começar a partir de agora. A equipa está bem, está confiante e agora é sonhar. Se quero ganhar mais quatro prémios destes? Era um sonho. Se a equipa render, eu também rendo.”
FABIO COENTRÃO: “VENHA QUEM VIER É PARA GANHAR”
“Demonstramos que podemos chegar longe. Não foi um jogo muito bonito, mas foi muito táctico. Entramos a pensar na vitória, mas na parte final, como não foi possível marcar golos, pensamos: ‘Vamos defender que um pontinho dá-nos a qualificação’. Acredito que Portugal vai estar nos quartos-de-final. A nossa equipa está a demonstrar qualidade e querer. Venha quem vier, Portugal vai entrar com um único objectivo: ganhar.”
SIMÃO: “TAMBÉM TIVEMOS OPORTUNIDADES”
“Fizemos o nosso jogo, pois jogávamos a qualificação e não os três pontos. Também tivemos oportunidades para ganhar.
[Sobre o futuro adversário] Tentaria evitar a Espanha, que tem uma equipa fantástica.”
PEPE: “SENTI-ME MUITO BEM”
“Senti-me muito bem, demonstrei que estou bem e agora só tenho de dar continuidade ao trabalho e seguir em frente com muita determinação. Vim para a selecção com o intuito de jogar pelo meu país e de ajudar a equipa. Para mim todos os jogos são especiais. No começo o jogo foi bastante duro, mas sem desrespeitar o adversário. Agora, estamos preparados para qualquer selecção. Não sofremos qualquer golo até agora e isso é muito importante.”
RICARDO CARVALHO: “RESULTADO JUSTO”
“Não sofrendo temos mais possibilidades de ganhar. Foi um jogo um pouco estranho, tornou-se um pouco lento, até porque o relvado também não estava nas melhores condições. Mas foi um resultado justo atendendo ao que se passou.”
DECO: “A ILUSÃO AUMENTA, O SONHO FICA MAIS PERTO”
“Estou a treinar e em princípio, se nada de errado acontecer, vou estar recuperado para o próximo jogo. Importante é estar disponível e poder ajudar a selecção. O problema é que o Mundial é uma competição curta. Qualquer lesão pode tirar um ou dois jogos num espaço de uma semana. Espero estar disponível para o próximo jogo.
[Sobre o próximo adversário] No Mundial não há muito por onde escolher. O importante era conseguirmos a qualificação. Hoje demonstrámos que temos capacidade para ir longe. Vamos entrar numa fase onde tudo pode acontecer.
[Sobre se Portugal é um dos favoritos] Não podemos considerar Portugal favorito, porque não temos tradição nos Mundiais, mas sempre disse que temos possibilidades. Agora estamos nos oitavos e a ilusão aumenta, o sonho fica mais perto. Acho que continua tudo igual, os favoritos são os mesmos. A Itália e a França estão fora, mas ainda há Brasil, Argentina Alemanha e Inglaterra. Estamos a correr por fora e tudo pode acontecer."
MIGUEL VELOSO: “RESPOSTA AO CRÍTICOS”
“Mais importante do que tudo foi a qualificação, até porque muitos duvidavam deste grupo e mostramos precisamente o contrário. De certa forma foi uma resposta aos críticos. Próximo adversário? Temos de pensar em nós próprios e no nosso único objectivo, que é ganhar.”
TIAGO: “EMPATE COM SABOR A QUALIFICAÇÃO”
“Este empate teve o sabor da qualificação, que era importante assegurar. Gostava de ter sido primeiro, mas fomos segundos. Fizemos um jogo muito sério. Não queríamos perder, pelo que optamos por sair rápidos para o contra-ataque, sabendo que Brasil é rápido e troca bem a bola.
[Sobre o próximo adversário] Evitaria a Espanha, que é um adversário muito forte. Se nos tocar a Espanha, vamos para ganhar e para fazer um grande jogo.”
Estádio Moses Mabhida, em Durban.
Árbitro: Benito Archundia (México). Assistentes: Hector Vergara e Marvin Torrentera.
Cartão amarelo: Luís Fabiano (15’), Juan (25’), Duda (25’), Tiago (31’), Pepe (40’), Felipe Melo (43’) e Fábio Coentrão (45’).
PORTUGAL – Eduardo; Ricardo, Costa, Ricardo Carvalho, Bruno Alves e Fábio Coentrão; Pepe (Pedro Mendes, 64’), Tiago, Raul Meireles (Miguel Veloso, 84’), , Danny e Duda (Simão, 54’); Cristiano Ronaldo.
Treinador: Carlos Queiroz.
BRASIL – Júlio César; Maicon, Lúcio, Juan e Michel Bastos; Gilberto Silva e Felipe Melo (Josué, 44’); Dani Alves, Júlio Batista (Ramires, 82’), Nilmar e Luís Fabiano (Grafite, 85’).
Treinador: Dunga.
Resultado final: 0-0.