A viagem para Madrid foi feita na véspera, ao final da tarde. À chegada, apenas tempo para compor o estômago antes de recolher ao quarto para uma noite descansada, mas que anunciava emoções fortes. O dia começou bem cedo. Pela manhã, uma leitura dos jornais enquanto tomava o pequeno-almoço. Alguns minutos foram dedicados à preparação da conferência de Imprensa marcada para a hora do almoço, porque nada podia ser deixado ao acaso. De seguida uma deslocação a Valdebebas, a primeira desde que foi anunciado como treinador do Real Madrid para as próximas quatro temporadas. Lá encontrou Raul, que estava a treinar. E foi a primeira conversa entre o novo treinador e o histórico jogador merengue. Foram assim as primeiras horas de José Mourinho em Madrid.
Na sala de Imprensa do Estádio Santiago Berbabéu estavam mais de 200 jornalistas, aguardando ansiosa e impacientemente a chegada do número um. “El especial” chegou, acompanhado por Jorge Mendes, o seu empresário responsável pela sua transferência pela Madrid, passavam 25 minutos das 10 da manhã e para uma reunião com Jorge Valdano. Antes, o treinador que apenas nove dias antes tinha sido campeão europeu, naquele mesmo estádio, estivera no centro de treinos do Real. Para conhecer ainda melhor os cantos à casa que será sua nos próximos quatro anos e para colocar todo o material e objectos pessoais no seu novo gabinete.
Tranquilo, muito sereno, apenas um pouco mais comedido do que lhe é habitual, foi assim que José Mourinho se apresentou à vastíssima plateia no Santiado Bernabéu, falando em castelhano/italiano, português, inglês. Tinha reunido com Valdano, tinha estado com Florentino Perez para firmarem o contrato. Não tinha perdido tempo. Aliás, aproveitar o tempo em Madrid antes das férias é a primeira e única preocupação do treinador português. Por isso passou boa parte da manhã em Valdebebas, por isso lá esteve boa parte da tarde, a isso se referiu repetidas vezes durante o almoço tardio – que começou por volta das 15h30 – que teve com os responsáveis do Real Madrid – Florentino Perez e Jorge Valdano incluídos –, com os seus adjuntos Rui Faria, Silvino e José Morais, com Eládio Paramés, com Jorge Mendes. “Temos de trabalhar, vamos trabalhar num pouco, não?”, disse uma, duas, três vezes. E foi até à noite. E assim será durante toda esta semana. José Mourinho, “El especiale”, já conquistou Madrid.
Eis algumas das principais ideias transmitidas por José Mourinho numa conferência de Imprensa que se prolongou por uma hora e que teve na primeira fila da plateia um sorridente e deleitado Florentino Perez:
“Ninguém pense em transformações radicais, mas sim em pequenas adaptações. O Real Madrid. é um clube único. Para um jogador ou um técnico importante, não representar o Real é uma falha importante na carreira. É um orgulho muito grande treinar o Real Madrid. Bonito, bonito não é jogar no Real Madrid. Bonito é ganhar pelo Real Madrid.”
“Primeiro que tudo quero fazer muitas perguntas, falar o menos possível e a tentar perceber melhor a realidade do meu novo clube. Diagnosticar é mais importante do que decidir. Com a maior confiança nas pessoas que trabalham e conhecem o clube, vou tentar diagnosticar o mais possível para depois transformar algumas coisas, adaptar algumas coisas em função do meu modo de trabalhar.”
“Quatro anos de contrato são suficientes para ganhar, para preparar o presente e o futuro.”
“Não sou provocador; sou trabalhador. Trabalho muito, muito, muito e queremos respeito. Se assim for, perfeito. Se não, vou defender sempre o meu grupo.”
“Os meus objectivos no Real não são diferentes dos outros clubes, em traços largos construir o presente e o futuro. Gosto da pressão, não gosto da protecção de dizer que preciso de três, quatro, cinco anos, para atingir objectivos. Parece-me que o segundo ano de trabalho é o ano chave, onde se encontra o equilíbrio entre o crescimento de uma equipa e o cunho do seu treinador. Foi no segundo ano que fomos campeões europeus no F.C. Porto, no Inter, foi sempre no primeiro ano que ganhámos campeonatos. Não precisamos de muito tempo para construir uma equipa. Para uma equipa com identidade própria, também com futuro, sim, precisa-se de mais tempo.”
“Cristiano [Ronaldo] é um jogador incrivelmente importante, não só para o Real mas também para o mundo do futebol, mas a força das minhas equipas foi sempre a equipa, não indivíduos. A coisa mais importante é o clube, não os jogadores ou o treinador. Se todos treinarmos em grupo, não é assim tão difícil conseguir resultados. O Cristiano é um vencedor, gosta de ganhar. Não é difícil convencê-lo de que o mais importante não são os jogadores ou o treinador, é o clube. A promessa é que sou o José Mourinho e o José Mourinho trabalha muito, trabalha bem, dedica-se aos limites. Crio empatia com as pessoas com quem trabalho e vou ser igual a mim próprio.”
“Penso que todos os treinadores devem estar preparados para a demissão. Mas se um treinador está com medo do despedimento não trabalha bem e tem grandes dificuldades. Sou um treinador com muita auto-estima, com muita confiança e não penso em despedimentos, pelo contrário. Penso que quatro anos de contrato são suficientes para ganhar e construir uma equipa com identidade. Quero preparar futebolisticamente não só o presente, mas também o futuro do Real Madrid.”
“Não sou anti-barcelonista, sou treinador do Real Madrid e preocupa-me o Real Madrid e não com o Barcelona. Preocupa-me a construção de um grande Real Madrid. O Barcelona é um grande rival na Champions e na liga, mas não quero falar, nem pensar no Barcelona neste momento. Se sou odiado em Barcelona, problema de quem me odeia, não é um problema meu. Da mesma forma que preparei os jogos do Chelsea e do Inter contra o Barça, dez jogos em cinco anos, vou fazer o mesmo com Real Madrid. O medo não é uma palavra que conste no meu dicionário futebolístico. [interrogando Jorge Valdano, sentado a seu lado] É possível que no sorteio do campeonato saia na primeira jornada um Real-Barça? É que em Inglaterra já joguei contra Manchester na primeira jornada, em Itália tive a primeira jornada com o Milan… Gostava que fosse um Real-Barça na primeira jornada. Nestes jogos não é necessário motivar os jogadores…”
“O José Mourinho adapta a sua filosofia aos jogadores que tem. Isso é o mais importante para mim. Tirar dos jogadores o melhor que eles têm. Por sorte minha, são poucos os jogadores que tive nas minhas equipas que não melhoraram. Normalmente os jogadores que trabalham comigo acabam por se valorizar. Para mim, a equipa deve ser feita de equilíbrio, com bola ou sem bola. Ser psicologicamente muito forte, ganhar os jogos e ganhar os jogos decisivos. Para isso não conta só a qualidade futebolística, mas também uma força psicológica muito grande. Essa força é uma qualidade muito importante no futebol de hoje. Sem isso não é possível ganhar jogos importantes e ganhar títulos.”
"Não posso prometer que o Real irá longe na Champions. Não somos cabeça-de-série, mas no momento do sorteio o medo não será nosso mas sim de quem irá jogar com o Real Madrid. Não quero medo no nosso balneário; quero medo no balneário dos outros."
“Uma coisa é a organização de jogo, outra coisa é jogar defensivamente. Quando uma equipa é organizada defende bem. Podem jogar com muitos jogadores de ataque e jogar bem defensivamente. No Inter, joguei com cinco jogadores ofensivos - Etoo, Pandev, Milito, Sneijder e Thiago Motta - e defendemos bem. E porque é que defendemos bem? Porque o treinador é um grande treinador.”
“Já joguei três finais de competições europeias. Nos três jogos ganhámos os três e marcamos oito golos. Três finais, três vitórias, oito golos. Quando se repete uma mentira muitas vezes, para as pessoas inteligentes essa mentira será sempre uma mentira, mas para os menos inteligentes essa mentira transforma-se em verdade. Por sorte, no futebol, há mais pessoas inteligentes do que menos inteligentes.”
“Não falei com o presidente do Inter sobre o próximo treinador. O Inter tem uma equipa de futuro, tem três ou quatro jogadores que têm poucos anos de futebol para dar, mas é uma equipa que foi construída para ter êxito hoje e amanhã. Se o treinador que chegar for inteligente terá grandes possibilidades de ter êxito, só tem de aproveitar o que está feito. Vai ser um treinador com grande sorte porque lhe ofereci a possibilidade de ganhar três títulos: Supertaça italiana, Supertaça Europeia e Mundial de Clubes.”
“Sou um treinador que melhora todos os dias. Trabalhei em Itália dois anos e aprendi muito. É importante ter a humildade de aprender todos os dias. O campeonato italiano é muito difícil. Saio mais rico e melhor treinador depois de dois anos em Itália e espero dizer o mesmo depois de realizar o meu trabalho no Real Madrid. Um treinador é mais rico e mais culto quando trabalha em campeonatos diferentes. O futebol italiano é campeão do Mundo e da Europa a nível de clubes. O futebol italiano, com todos os seus problemas, vive um momento de grande orgulho.”
“Alguns dos meus antigos jogadores deixam saudades. Não sou uma pessoa de guardar recordações. As bolas não são minhas: são do meu filho; as medalhas não são minhas: são do meu filho. Ouvir o Materazzi dizer-me: ‘Se te vais embora não jogo mais’ e eu dizer-lhe ‘Não vais não’. É isso que guardo.”
“O futebol é mais do que táctica, mais do que treino e jogar bem. O futebol joga-se com um grupo de homens que são todos diferentes, mas que formam uma família. Os jogadores passam a ser minha segunda família. Só com estes níveis de empatia é que se podem atingir resultados que ninguém espera. Com os jogadores, normalmente, consigo esse tipo de empatia que faz com que sejam os meus jogadores para sempre. Ainda hoje falo de jogadores do Leiria e do Porto e falo dos meus jogadores. Senti esta época a alegria de jogadores que já não são meus jogadores, mas que continuam a ser os meus jogadores. É isso que quero fazer no Real Madrid.”
"Raul? Falei com ele quando estive, de manhã, em Valdebebas, mas nesta conversa entre jogador e treinador jornalista não entra. Quem não está na história deve respeitar quem faz parte da história de um clube e eu tenho de respeitar Raul."