O jogo entrara em período de descontos. José Mourinho não perdeu tempo: aproximou-se do banco de suplentes do Bayern de Munique e cumprimentou cada um dos seus elementos, começando por Louis Van Gaal, com quem trabalhou no Barcelona. Os dois golos de vantagem na final de Madrid eram o garante de vitória. O jogo terminava pouco depois e José Mourinho correu, correu muito, de bandeira portuguesa firme na mão direita. O ex-chefe de equipa tinha sido derrotado pelo ex-adjunto. Mourinho é mais do que especial. É único, inigualável, inimitável. No Santiago Bernabéu conquistou a sua segunda Liga dos Campeões. Agora pelo Inter, 45 anos depois da última vez. “Não sei o que Moratti me disse, não me lembro. Foi um longo abraço. Foi incrível o casamento entre nós. Já me queria três anos antes quando eu estava no Chelsea e eu não fui. Depois quis outra vez e trouxe-me para cá. Fui eu que lhe dei o sonho, ele sonhava ter uma foto igual à do pai com a Taça. Estou muito feliz por lhe ter dado isso”, comentou.
A época fechava em pleno: primeiro foi a Taça de Itália, depois o campeonato e agora a Champions. São já 17 os títulos conquistados pelo treinador português em 10 anos de carreira. Com este último troféu, Mourinho volta a fazer história e é agora o terceiro treinador a conseguir duas Champions por dois clubes diferentes (os outros são Ernst Happel e Ottmar Hitzfeld). Ao seu estilo, garantiu: “Quero ser o único treinador a ganhar a Champions por três clubes diferentes”.
“Esta é uma competição que todos querem ganhar, poucos têm o privilégio de fazê-lo e eu tive o privilégio de ganhá-la por duas vezes”, explicaria pouco depois. “Perguntavam-me se iria sentir algo diferente da primeira vez e não senti. Não vai mudar se jogar a terceira, a quarta ou a quinta final. A resposta do meu corpo será igual. Se atingir a terceira final não vai mudar nada. A alegria é a mesma”.
Com Ricardo Quaresma a não ser utilizado, ele que venceu a sua primeira Liga dos Campeões, Diego Milito apontou os dois golos da vitória (um antes do intervalo, o outro a 20 minutos do final), mas foi sem dúvida José Mourinho quem mais honras recebeu por parte dos adeptos do Inter, antes, durante e após o encontro. No primeiro golo não festejou, pediu apenas calma à equipa. No segundo, sim, cerrou os punhos, certo de que o triunfo não escaparia. No final, correu, correu e correu, procurou a sua família na bancada, manteve durante alguns segundos o rosto fechado, emocionou-se, festejou com os seus jogadores (recebeu um forte abraço do seu capitão Javier Zanetti que lhe agradeceu tudo o que fez pelo clube), festejou com os adeptos, contornou o estádio com o seu filho às cavalitas, recebeu a Taça, voltou a festejar, mais uma vez dirigiu-se aos adeptos e entrou no balneário. É o fenómeno Mourinho.
“Van Gaal provocou-me antes do jogo porque disse que o Inter praticava um futebol defensivo”, resumiria depois, perante os jornalistas. “Sei o que ele queria saber. Mas não perdemos identidade e fomos uma equipa compacta, que manteve uma distância reduzida entre os jogadores e um bloco médio, procurando algo típico do seu futebol que é contra-atacar. Marcámos primeiro, o Júlio César teve depois a defesa da noite e a partida foi ficando mais fácil para nós. Controlámos a bola e marcámos o segundo golo. Jogámos como equipa, estivemos muito bem, com grande controlo emocional. Foi uma final de qualidade, não belíssima, mas boa, vencemos justamente não só por hoje mas pelo caminho que tivemos”, concluiu.
A festa prolongou-se pela noite dentro, com o Inter a ser recebido em Milão por mais de 50 mil pessoas. Mourinho volta a fazer história. Com ele, é inevitável.